quarta-feira, 23 de setembro de 2015

IMORTALIDADE

Há um par de anos atrás naquele dia, havia ruído uma das paredes do seu lar de carne e osso. E um forte temporal se abateu sobre aquela casa em ruínas.

Na sua meninice, no final das aulas, os TPC marcavam o ritmo da paternidade. E havia aquele trejeito com a língua, que acabara gravado nos seus genes. E os seus olhos sorriam ao olhar para o seu filho mais velho, reconhecendo num gesto, a união de três gerações.

Curioso... a forma como a espiral da vida une os que estão de partida aos que acabaram de chegar.

Por mais longe que estejam e mesmo que a memória por vezes os deixe fugir.

Apercebemos-nos quão importante alguém é para nós e o quanto amamos essa pessoa, ao sentirmos que foi pouco, todo o tempo que passamos com ela.

DETALHES

A figura apresentava uma semelhança extraordinária com o seu avô. No entanto ele observou - falta a verruga no queixo! O avô tem uma verruga no queixo.
 
Descíamos no elevador do prédio da avó. Tiago fazia a contagem decrescente observando os números nas portas do dito elevador. Quando chegámos ao R/C ele disse - É zero mas a porta não tem nada! - Por não ter nada é que é zero, disse eu parodiando. Ele ripostou - Mas a porta do outro lado (do outro elevador) tem um zero!
Fantástico.

PARTIR

Partir
 
Era urgente
Só, na estrada
Na estrada, só
Na estrada
Tudo estava bem
Na estrada

Viajar

Não estava
Em nenhum lugar
Nenhum lado
Perdido
Na viagem
Para sempre
Viajando
Não importa a estrada
Nem o caminho
A viajem, só

A urgência da lonjura

Talvez chegue

Um dia
Pouco importa
Não é urgente
Chegar
Havia sido
Partir
Sentia-se bem
Assim
Longe
Ausente
Fora
Isso!
Fora!
Na estrada
Algures...
Onde?
Por aí!
Fora!
Na lonjura!

Horizonte


Longe
Sempre
O horizonte
Sempre
Inatingível
Sempre
O horizonte
Longe
Ao
Sempre!

Céu
Em cima
Em baixo
Terra
Mar
Mais em baixo
Rios
Lá ao fundo
Tudo se une
Só um
Onde
Lá longe
No
Horizonte

Foje
Corre
Mais depressa
mas...
Não
Não consegues
apanhar
Continua
Longe
continuas longe
Horizonte

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

AUSÊNCIA DO ADEUS

Dedicado a um amigo

Ausência do Adeus

Gostava de me ter despedido de ti mamã.
Que alguém me avisasse. Vai partir.
Ter-me-ia aninhado junto às paredes do teu corpo. O meu lar de sempre. No regaço mais doce. Na criança que fizeste crescer.
Sentido o prazer de me banhar na água morna do teu olhar. Das carícias tépidas da tua voz.


Não percebo esta distância. A ausência do adeus.
E quando quiser voltar?
Sopra um vento frio. É noite no meu olhar.
 

I BELONG IN ANOTHER ERA

Escrito a ouvir o "Legendary" no MBox

I belong in another era
Beyond the past and the future
Outside the elipse of time

I belong in another day
A Mascarade in the veil of the night
All the eras could not find their way
Through my body

A scope full of rain smoke and fire
Red flame Burns in to my vein
While oceans of sand dive in to the sea
Sea of Murmur

Tongue was stuck on the road
To nowhere
Nowhere is your home Lou,

Are you there?

ANJO NEGRO

Para ser lido ao som de "Black Angel" dos "The Cult"
 
Chamem-lhe crise da meia idade, ou lá o que quiserem, mas não são poucos os dias em que acordo a pensar -  "Não foi para isto que eu nasci!".
 
Algo chama por mim algures, na fina linha do horizonte. A vontade de partir rumo ao desconhecido é tal que estrangula o respirar.

Destino fatal
Segue o caminho errado, guiado pela memória do dever, cumprindo quem não é, desejando ser um outro.
Atravessa Avalon nas brumas coloridas do trafégo matinal. É duro chegar a um destino que não escolhemos. No vício do conforto, o corpo esquece o sonho, decapitando a alma.

Evasão
Fugitivo, como é longa a tua jornada. Espreitando sobre o ombro, rodas o punho, almejando escapar. Uma brisa fresca lava-te o rosto, diluindo a ânsia no teu olhar.
Montado no negro cavalo de ferro, ouves o silvo soluçante do vento.
À sua passagem, o reflexo da alvorada aquece de luz a berma da estrada. 
Na ausência da viagem desaparece a memória do lar. Estiveste fora. Por tanto tempo. Demasiado tempo.


domingo, 26 de outubro de 2014

REGRESSO (QUASE) SEM POESIA


Pi-pi-pi-pi-pi-pi...!
Na cabeça: Eeiaahhh... que horas são isto? Seis e tal da madrugada?!
Merda para o "jet-lag" das férias. Dormi pouco mais de três horas. Estou sem energia. Não vou trabalhar!
Bem, ela já se levantou. É melhor levantar-me também. O puto mais velho começa as aulas hoje e entra às 8 e 15.
Levanto-me. Sinto os ossos perros. Tropeço numas porcarias junto aos pés da cama. Abro as persianas. Ao mesmo tempo fecho os olhos para não cegar com a claridade. Ainda é de noite. Sinto o alívio do vampiro! Por pouco não fui incinerado.
- Arranja os miúdos, enquanto eu tomo banho!
Pronto! Já está a dar ordens! Eu sei que tenho de ir acordar e arranjar os miúdos! Foi o que combinámos ontem, não foi?
- Vá lá malta, "rise and shine"! As férias acabaram. Toca a acordar moços! Hoje é dia de escola!
 
Os putos protestam e viram-se para o lado. Como eu os percebo! Longe vão os tempos em que passavam a noite a acordar e a acordarem-nos. Hoje já apreciam um belo soninho, quase tanto como nós! Sobretudo em dia de aulas!
- Tem aqui a vossa roupa, vistam-se e sigam para a cozinha, rumo ao pequeno almoço.
Ouço mais resmungos e protestos a sair das miniaturas de homem, mantendo a sua posição horizontal sobre o macio colchão. Mais uns abanões e uns berros e... Dois anões zangados, a sair!
- Branca de neve, tens pá troca? Dava-me jeito trocar estes dois pelo Feliz e o Dengoso.
A Branca não me ouve. Ainda dorme, lá na terra dos sonhos, onde todos foram felizes para sempre.
-Paaaiii, eu não quero estes sapatos!
-Paaaiiiii, eu não visto estas calças!
- ($%#§) Meninos já estamos atrasados, não se ponham com fitas!
Sacanas dos putos! Não nos podiam ajudar?! Nestes dias em que andamos todos à procura de um resto de férias, caído atrás da cómoda, ou debaixo da mesa de jantar?
 
- Tens de ser mais despachado com eles! Ainda não estão vestidos e já devíamos estar a sair de casa!
Como se a culpa fosse minha! Como se eu tivesse uma varinha mágica para curar as birras de sono!
E de repente, os filhos com quem brincámos e relaxámos ainda ontem, tornam-se um empecilho, mais um obstáculo a vencer no caminho para chegar a horas ao emprego. 
- Meninos, despachem-se ou a mamã vai-se embora sem vocês! (Está bem, abelha!)
Muitos berros e ameaças depois, lá estão os três à espera que chegue o elevador. Mais ou menos vestidos. Mais ou menos comidos. Mais ou menos preparados para o dia que os espera. O dia que todos gostávamos de ter feito esperar mais e mais e mais um pouco.
 
Sabemos que temos um tempo limite para atravessar a linha que separa o fim das férias do primeiro dia de trabalho. Mas estou certo que todos nos esforçamos por adiar ao máximo esse momento. Porque ao passar essa fronteira, deixamos de lado a liberdade de sermos inteiramente senhores de nós e do nosso tempo. E gelamos quando, olhando para a alfandega cronológica, vemos o relógio à nossa espera, sorrindo cínico de algemas na mão.       
 
Faço (ou desfaço) a barba. Banho. Vestir. Pequeno-almoço. Saio. Entro no carro. Mergulho num rio de veículos que lentamente, desce encosta abaixo, desaguando numa rotunda onde, porque temos pressa, todos andamos devagar. Como na "rotunda - carrocel" de Jacques Tati, em Playtime!
 
Os chico-espertos atravessam-se à nossa frente. Nós buzinamos e refilamos com eles. E depois refilamos connosco, por nos termos dado ao trabalho de refilar com eles. Os minutos passam. Não saímos do sítio. (The F... word).
 
Muito, demasiado, tempo depois, chegámos finalmente ao escritório. E não há quem não nos pergunte como foram as férias e se já acabaram. Foram boas e sim, já acabaram!
Caso contrário que estava aqui a fazer?! Acabaram! Não preciso que me estejam constantemente a lembrar!
Bem vivos na nossa memória estão os sítios onde estivemos, as aventuras porque passámos. Na penumbra das quatro paredes a nossa pele vagueia perdida, à procura do sol que sempre a acariciou, todos esses dias.
 
E na noite dos dias iguais, escapa-se nos a capacidade de contemplar a beleza cósmica, contida na infinitude do ser. De, juntamente connosco, admirarmos tudo aquilo que nos rodeia e encerra em si o deslumbrante milagre do quadro à nossa frente, originalmente intitulado - "vida".